Necessária solidão

"É na solidão, onde cada um está entregue a si mesmo, que se mostra o que se tem em si mesmo.Nela, sob a púrpura, o simplório suspira, carregando o fardo irremovível da sua mísera individualidade, enquanto o mais talentoso povoa e vivifica com os seus pensamentos o ambiente mais ermo." Arthur Schopenhauer

domingo, agosto 28, 2011

"Fora com eles!"

Com essas palavras é finalizada a apresentação de um vídeo no qual uma reportagem do jornal televisivo "Bom Dia Brasil", da TV Globo, mostra o custo de um parlamentar no Brasil quando comparado a outros países. De fato, é algo de indignar qualquer um. Sobre o vídeo referido e sobre as palavras que o encerram é que quero comentar:


Desde muito cedo entendo que a capacidade de indignar-se com aquilo que consideramos injusto ou errado é o primeiro passo que nos leva à plena condição de CIDADÃOS, na acepção mais ampla a que essa palavra nos remete. Entretanto, só essa indignação não é suficiente para mudar a realidade das coisas e protagonizar as transformações. Mudanças dependem do cumprimento de, no mínimo, dois requisitos: o primeiro, extremamente subjetivo, do qual a "indignação" que mencionei, faz parte, e que se associa ao desejo de mudar, o querer transformar; o segundo requisito, bastante objetivo, está inapelavelmente ligado ao exercício da "razão", de um certo conhecimento: o que fazer para mudar a realidade (para melhor, é claro....).

Dito isso, compreendo a legitimidade da indignação dos que assistem ao vídeo mencionado. É realmente capaz de causar muito mais que indignação. Provoca náuseas e desperta em qualquer um de nós uma espécie de "furor de cunho ético" e que nos faz clamar por mudanças, o que pode ser muito positivo.
Entretanto, a realidade sócio-política brasileira - como de resto qualquer fenômeno - não comporta análises simplificadoras. A realidade é muito mais complexa e frequentemente não nos permite analisá-la com toda a propriedade, algo que só pode ser realizado quando se tem todas as informações para isso.


E é aqui que começa a minha apreensão. Num mundo dominado pela propaganda, pelo marketing, mais pela embalagem que pela essência, fica muito difícil ao cidadão comum saber onde está, de fato, a verdade. Li, certa vez, que a "verdade é um tesouro tão precioso que sempre vem escoltada por um batalhão de mentiras". É, pois, necessário para qualquer um que queira encontrá-la, empenhar-se numa verdadeira jornada para saber onde de fato está ela.

Num país onde os veículos de comunicação não são tão independentes como tentam nos fazer acreditar (e me pergunto onde o serão...), onde jornalistas são verdadeiros "bocas de aluguel" e que só dizem aquilo que seus patrões determinam (do contrário perdem seus empregos...) e onde os interesses das grandes corporações (e quando digo corporações, quero aqui me referir a TODAS: civis e militares) e que amiúde determinam os nossos destinos, não creio ser sensato acreditar piamente em tudo o que nos dizem.

No caso do presente vídeo, e se forem verdadeiros os números, acredito que algo de muito errado esta acontecendo em nosso país. Mas não apenas com os políticos não! Com todos nós, com toda a sociedade! Porque se eles estão lá é de se perguntar como fizeram para isso. Certamente com os votos da sociedade, mas igualmente com suas campanhas financiadas por esta ou aquela empresa, esta ou aquela corporação. Políticos são, na verdade, um espelho de nossa sociedade. Em todos os setores há pilantras: entre os empresários, entre os operários, entre os artistas, entre os militares, entre os médicos (categoria a qual pertenço e da qual às vezes me envergonho), entre as donas de casa, entre nossos filhos, entre os advogados e juízes, entre os cientistas, entre os professores, etc. Pilantragem não é, portanto, privilégio só de político não!

E se assim é, se os políticos são um recorte da sociedade, o que precisamos é de instituições sólidas e de valores e crenças com profundo lastro ético e que não permitam vicejar tal espécie de políticos! É preciso apostar - assim como fizeram e fazem as grandes democracias (embora mesmo estas também enfrentem seus problemas) - que nossa nação pode avançar, amadurecer, corrigir as graves distorções que apresenta (como, por exemplo, a corrupção e o elevado custo dos políticos para a sociedade).

Esse "avanço", esse "andar para a frente", esse "novo patamar de exercício ético" só poderá ser alcançado via DEMOCRACIA. Quanto a isso, não acredito que possa existir aqui qualquer antagonismo de opinião ou de atitude, uma vez que ela própria - a DEMOCRACIA - é o grande receptáculo, o grande campo para a solução dos nossos problemas e o terreno onde há plena fertilidade para que plantemos e colhamos um BRASIL do qual nossos filhos possam se orgulhar.

Sei que todos temos pressa, mas somos uma nação ainda muito jovem e, como todo jovem, faz um "monte de bobagens" mas acaba por aprender com seus erros. É assim que o mundo anda. Pelo menos é isso o que penso. E já cometemos uma grande bobagem num passado recente: permitimos que esse país ficasse mais de 20 anos a mercê de uma ditadura feroz, que prendeu pessoas sem lhes dar a oportunidade de julgamento justo, omitiu, torturou, assassinou, mutilou uma geração inteira e lhe solapou a oportunidade de desenvolver juízo crítico. E tudo em nome do que? Ironicamente, em nome da defesa da família e da democracia.... Mas tudo o que nos deixou foi uma imensa dívida externa - que corroeu durante anos a nossa combalida economia - e impregnou de autoritarismo muitas mentes e muitas instituições, especialmente nossas escolas, transformando-as em grandes e inexpugnáveis quartéis.



E aqui continua a minha apreensão: a mensagem se encerra com uma pequena frase, mas que não esconde seu grande e quase lúgubre significado: FORA COM ELES!

E aqui eu pergunto: FORA COM QUEM? E eu mesmo respondo, sem o menor receio de errar: FORA COM OS POLÍTICOS, COM O CONGRESSO, COM AS INSTITUIÇÕES CIVIS, COM A DEMOCRACIA! Porque assim provavelmente alguém ensinou. Porque é assim que provavelmente muitos aprenderam!

E os que assim pensam não se apercebem que estão a reproduzir o mesmo erro e que pode, como consequência, fomentar a mesma bobagem que se cometeu há pouco mais de 4 décadas. Não percebem que, se de fato democratas se consideram, tudo o que tem a fazer é disputar a democracia. Mas por dentro. Participando da vida política. E não se auto-intitulando os arautos dela! Ocupando o espaço conquistado pela pilantragem e mostrando à sociedade que podemos fazer e viver a política de uma forma menos iníqua e mais solidária.

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